é assim mesmo

Tudo o que vivi me preparou para atravessar esse momento. De alguma maneira, isso me faz ser grata por tantas experiências transformadoras que tive até hoje – um sem número delas, ao longo de 38 anos, que aproveitei como e o melhor que pude.

Não por acaso (faz tempo que não acredito mais nisso), iniciei há exatas 10 semanas, ou seja, duas semanas antes da quarentena, uma experiência que tem sido a minha verdadeira tábua de salvação para esses tempos imemoriais.

Em 2019, tropecei – no melhor sentido da palavra– numa pessoa arrebatadora. Uma gaúcha, que se apresenta muito melhor do que eu seria capaz de fazer, chamada Andrea Fortes (recomendo que se acheguem para mais perto dela).

Numa noite bastante inusitada fui a uma “Costura Biográfica” – uma espécie de aula/ bate-papo que ela promove há alguns anos e que me atraiu por abordar a história de vida de pensadores e artistas que andavam rondando no meu campo de pesquisa e reflexão.

Lembro-me que Andrea perguntou ao grupo de pessoas reunido naquela noite chuvosa de dezembro a razão pela qual estavam ali e de onde a conheciam, uma vez que a divulgação das suas aulas era feita apenas entre amigos de amigos. Fui muito sincera. Disse que tínhamos uma conhecida em comum e que, honestamente, não tinha nem ideia de porque estava ali. “Só senti que tinha que vir e vim”. Ela olhou para mim, abriu um sorriso grande e bonito – sua expressão mais marcante – e disse sem surpresa: “é assim mesmo”.

Três meses depois embarquei nessa jornada de doze semanas de puro autoconhecimento e salvação em tempos sombrios. Cerca de 30 pessoas, reunidas semanalmente pela internet – sem que soubéssemos que esse seria o “novo normal”, para resgatar seus artistas interiores, desbloqueando o potencial criativo e abundante à nossa disposição. Método? Mergulhar em aguas profundas, memórias afetivas, sonhos e muitas palavras.

As “Costuras do Artista”, baseadas no livro de Julia Cameron (The Artist Way) tem sido minha bússola mais sensível, e ela aponta sempre para dentro. Para o centro de mim, para o meu próprio sentido de viver – condição inexorável para me manter de pé, enquanto o universo convida à despedida do velho mundo, dos hábitos insustentáveis, do acúmulo e do desperdício. Para que, recuperada de capacidade de criar, possa SER o novo mundo.

2 de maio de 2020

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