arrependimento mata

Morar no centro de São Paulo me deu a exata definição do que é viver numa cidade que não para. Há sempre um ruído. Há sempre um carro no cruzamento. Há sempre alguém andando na rua. Bom, há sempre gente vivendo na rua. Quer medir a taxa de isolamento social na quarentena? Olhe pela minha janela. A visão do Largo da Igreja de Santa Cecília é o melhor instituto de pesquisa que existe.

Hoje levantei antes do Sol nascer. Era noite ainda quando fui para a varanda. Tudo estava aparentemente calmo, silencioso, vazio. Passou um carro com os faróis acesos. Aos poucos uma ou outra pessoa, e mais duas, três, surgiram caminhando do metrô em direção à Santa Casa. Fechei os olhos, elevei, num suspiro, meus pensamentos ao amor e à cura. Essas pessoas são imprescindíveis. Deixam a proteção de seus lares para, por vezes sem recurso quase nenhum, enfrentarem um mal que não se vê, mas que devasta.

São fundamentais, mas não são heróis, ainda que ajam como tal. Não há super poderes, não há coragem nem sequer vocação que dê conta da vulnerabilidade e, sobretudo, do descaso a que estão submetidos. Não fazemos – como sociedade – nada, absolutamente nada por eles, mas esperamos que entreguem suas vidas, com destemor, a todos. Há nobreza? Sem dúvida. Mas, acima de tudo, há necessidade.

Uma notícia recente que diz que oito trabalhadores do transporte público de São Paulo morreram até agora pela COVID-19. Vítimas da irresponsabilidade de governantes, da indiferença e da demagogia, da falta de educação de um povo, da própria miséria. Vítimas do descaso com a vida, da chacota, da barganha, do deboche, da disputa pelo poder – e aqui não há bandidos nem mocinhos, mas, sim, adversários. Mudam as trincheiras (e isso faz alguma diferença), mas a munição da escrota guerra política é, e sempre foi, uma só: a vida humana.

Especialmente, aquela vida que não vale nada, que não afeta o PIB, que não altera o valor do barril de petróleo. Vidas destinadas, desde o nascimento, à vala comum. Vida que caminha, antes de amanhecer, vinda do mais distante subúrbio, para enfrentar de peito aberto e álcool gel um vírus mortal. Vida que acorda, trabalha e vai dormir com medo, mas que, ao contrário de nós, não tem escolha.

Se bater panelas na janela vai mudar essa realidade, tenho minhas dúvidas. Se te alivia, ainda assim, bata. Se bater, bata com vontade. Fique em casa, lave as mãos, lave as compras e use máscara (bom, é obrigatório agora). É o que está ao nosso alcance de imediato. Ah, e, por favor, use um pingo de bom senso nas próximas eleições.  

2 de maio de 2020

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