o que podemos aprender e ensinar?

Está sendo muito difícil para todos nós aceitarmos a excepcionalidade do momento em que estamos vivendo. Nosso modo de trabalho, nossos planos e rotinas, tudo o que imaginávamos para nossos dias estão transformados ou em suspenso. E, claro, isso vale para as escolas e para os educadores – que tem trabalhado, certamente, muito mais do que já trabalhavam (que já era muito) e ainda enfrentando os mesmos desafios que todos nós – com filhos em casa, incertezas e medo.

Pensando nisso, por aqui, temos procurado redobrar a paciência conosco mesmo e com as crianças. Estamos trocando os pneus com o carro andando, nos “reinventando” e a nossa capacidade de “resposta” às situações precisa levar isso em conta.

Fico pensando que estamos num momento tão excepcional … e que adaptar qq proposta pedagógica de educação infantil e fundamental, sobretudo, para modalidade 100% à distância é algo muitíssimo complexo – pra não dizer impossível. Mais do que nunca, então, é inevitável que falemos sobre expectativas.

Lembrei-me de que minha filha mais velha teve uma pequena fratura na perninha, quando estava com apenas 9 meses de idade. Ela estava em vias de engatinhar e o gesso, mesmo tendo sido usado por apenas 15 dias, impactou totalmente nesse processo.

Com um ano e quase quatro meses ela ainda não andava. Fiquei aflita, todos me perguntavam: ela não anda ainda? Já era para ela estar andando! Tem certeza de que não há nenhum problema? Fiquei insegura. Será que havia mesmo algum problema? Será que eu negligenciara o seu desenvolvimento? Resolvi consultar um médico muito experiente. Ele me disse que estava tudo bem e que era para eu me despreocupar. Ao final da consulta, ele me deu o cartão com um numero de celular e disse: me liga quando ela andar. Quinze dias depois liguei para contar a novidade e agradecer.

Aprendi naquela ocasião que minha aflição estava diretamente relacionada à minha expectativa e à expectativa que o mundo apresentava para a normalidade de crianças aos 12 meses.

Pensando nisso, esses dias, considerei: diante de taaaanto problemas que estamos vivendo e dos tantos que estão por vir e, sobretudo, diante do impacto humano de tudo isso, qual será a consequência de atrasar em um ou dois meses o processo de aprendizagem e alfabetização da minha filha de 6 anos? Será que juntos – família e escola –, em apoio mútuo, não temos mais a ensinar aos nossos filhos do que apenas ler e escrever? Como tudo isso pode ser melhor?

Podemos viver esse momento como uma grande perda ou como uma oportunidade de construção coletiva e de um aprendizado, esse sim, importantíssimo para a vida de todos nós. Aprender sobre a calma, a generosidade e a administração de nossas expectativas que, no fim das contas, é o que nos faz reféns nesses dias tão incertos.

Escrito em 02/04/2020

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