minhas palavras

Não tem quase nada mais difícil de superar na vida do que uma página em branco. Na tela do computador, no caderno, numa folha de desenho ou numa tela de pintura. A primeira palavra, o primeiro traço, a primeira pincelada. Ter uma inspiração primeira, um gatilho, uma ideia a desenvolver parece mais difícil quando olhamos para o branco, o vazio, tanta indefinição.

Por isso, os processos de desbloqueios criativos em geral começam por fazer, sem dar por isso, qualquer coisa, para só depois editar, preencher, alterar. No fundo, é uma boa amostra do medo que a liberdade dá. A possibilidade de que, a partir de daquele espaço, possa sair a sua vivência mais louca, a sua mais profunda história de vida ou o turning point das suas angústias.

Venho diariamente buscando superar essa trava inicial e deixar fluir as emoções para o teclado ou pela ponta da caneta as palavras, aos supetões. É que mesmo sem perceber esse ano resolvi me reapaixonar pelas palavras, convidá-las para um café e bater papo. Assim, tenho preenchido cadernos e mais cadernos com elas. Editadas e sem edições. Com e sem revisão. Simplesmente soltando o fluxo do pensamento entre o que se passa na minha cabeça agitada e a velocidade que meus dedos são capazes de digitar. Erro, apago, volto. E recomeço uma frase. Ponto. E mais uma. Ponto.

Sempre tenho a sensação de ter uma vida inteira a ser lida, escrita, assistida, cantada. Então, é preciso deixar o caminho aberto para a criação. Sobretudo, deixar o que me atravessa transbordar a mente e escorrer pelos dedos. É que os escritos começam antes de deitarem no papel. Assim como a pintura já existe no simples ato de encher o copo de água que vai molhar os pincéis e diluir a tinta.

Nossas expressões estão lá ardendo, pulsando em silêncio branco. Podem passar uma vida aprisionadas nas ideias, sem que possam ganhar formas, cores e traços. Mas, creia, aqui não mais! Aqui vou libertá-las para que possamos juntas nos preencher e ser autênticas, e não mais caladas em duvidosas pausas.

Acontece que essa vontade vem também com uma urgência que me adoece. É que é tanta vida para viver e tão pouco tempo livre para passar, que me sinto presa num imenso hiato. Como se estivesse a esperar, para sempre, o tempo que terei tempo para ser.

Numa fuga furtivamente sem rumo, fiz mais de seis cursos diferentes neste ano – entre presenciais e virtuais, de bordado à psicologia do puerpério. Estou lendo agora quatro livros ao mesmo tempo. E, se você é uma pessoa que faz da ordem um imperativo, vai sentir angústia no meu caos. Mas a verdade é que essa pessoa polvo aqui é tudo que eu mais gosto de ser. É o que me leva além. Mesmo que essas demandas todas, por vezes, sejam a fonte de todo o mal que me toma de assalto e faz o coração disparar à toa e o corpo tremer. Mesmo assim, é nessa multiplicidade que eu sou. É nela que mora minha identidade. É nesse espelho que eu me vejo refletida e é na liberdade de me reinventar que eu espero ansiosa por cada amanhecer.

Textos autorais, exposição, compartilhar a vida. Não vou mais fugir. É que na sombra da intimidade escondi fraquezas de não autorizar a minha própria humanidade, com todos os seus defeitos e vergonhas. Mostrar-me em pedaços, frágil e com medo, como estou agora, é um ato extrema de coragem. “A coragem de ser imperfeito”, como diz a musa Brené Brown. Atravessar o rio sempre novo, num corpo sempre novo. Deixar a vulnerabilidade inédita entrar por todos os buracos e ser grata por todas as partes que me faltam. São elas que me motivam a ser o sumo da curiosidade absoluta, que me define e nunca me limita.

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