Uma brasa no meu peito

Antes de mais nada, devo lhe dizer que sou aquele tipo de pessoa que gosta de legumes no churrasco. Não sou vegetariana, ao menos não ainda – embora já tenha informações de que nós, os carnívoros, contribuímos massivamente para o colapso do meio ambiente. O que me faz pensar que o vegetarianismo será, dentro em breve, uma condição de sobrevivência. Essa constatação me traz algum alívio. Talvez eu tenha uma certa vantagem numa necessidade eventual e futura de adaptação à novos hábitos alimentares. Exceção feita à beterraba e ao jiló, topo quase de tudo do reino “não vivo”.

De toda maneira, achei importante pontuar isso para você não se enganar sobre mim. Tenho um vaso de costela de adão em casa, que trato como filha. Está por sinal a me dar netas, que são umas belezinhas. Aos poucos me tornei a louca das plantas. Não pense, no entanto, que foi um talento inato. Foi, sim, um ato de determinação pessoal em busca de uma conexão maior com a natureza. Deu trabalho. Agora, tenho ervas na varanda e uma samambaia também. Aprendi a observar e ouvi-las.

Tenho uma vitrola em casa e moro em Santa Cecília. É, só falta o chão de taco. Prefiro música popular brasileira a qualquer outro gênero. Não comparo Chico Buarque com nenhuma criatura, incluindo as desencarnadas, os seres sobrenaturais, elfos, gnomos, fadas, duentes e afins. Se o que ele faz das palavras não tem a ver com magia, não sei o que tem.

Talvez essa quase obsessão por Chico explique a vontade, sem cabimento, de me servir da língua portuguesa para dar sentido aos meus dias. Para cada tom de azul que vejo, experimento uma frase da Clarice. Para cada espécie de pássaro, um trecho de Manuel de Barros. Para cada café coado, um poema do Drummond.

Semana passada, Chico, mestre que é da letra brasileira, da falta de jeito de homem tímido, dos olhos de mar e Capitu, puxou palmas para saldar outro gênio. Gilberto Gil, 78 anos de vida e a eternidade, garantida, em melodia. A doçura do canceriano da Bahia. A síntese da arte que salva vidas. O cyber compositor, que botou “website” numa canção, que é paz e rabo da sereia. E que arranjou Juliana, João, domingo, José, parque e sorvete.

Junto a outros artistas, em um vídeo comemorativo que circulou em todos os meus grupos de WhatsApp e nas bolhas de que faço parte, Gil veio lembrar que “a fé não costuma faiá”. Ah! Era o unguento de que eu precisava para afastar o mau olhado e o mal-estar de sentir essa terra brasileira tão maltratada e amarga. O antídoto para uma vontade inesperada de partir daqui para ser estrangeira, nascida da desesperança.

Os olhos molharam, o coração bateu no compasso da zabumba e a memória traiu a razão: como é bonito ser daqui, como é bom compartilhar com minha gente a nacionalidade e a língua mãe. Não sei se você consegue me compreender, mas celebrar a existência de Gilberto Gil acendeu uma brasa no meu peito. Deu vontade de chamar os amigos para tomar uma sangria e botar uns legumes na grelha.

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